quinta-feira, 9 de maio de 2013

O Deus "desordenado" da ciência: repensando John Polkinghorne


Uma recente conferência em Oxford reuniu cientistas-teólogos para discutir a obra de John Polkinghorne (foto).

A análise é do escritor e jornalista inglês Mark Vernon, autor de "After Atheism: Science, Religion and the Meaning of Life" [Depois do ateísmo: Ciência, religião e o sentido da vida] (Palgrave Macmillan, 2008). O artigo foi publicado no sítio Religion Dispatches, 29-07-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto:
O Departamento de Física da Universidade de Oxford é uma mistura de edifícios novos e antigos. Em um labirinto de salas, seus cientistas vão atrás de interesses desde a computação quântica até a cosmologia teórica. A diversidade diz muito. Como uma árvore de conhecimento, a física moderna tem galhos que vão para todas as direções.

Exatamente do outro lado do departamento, está um edifício muito diferente: oKeble College. Sua estrutura unificada e gótica é inesquecível – construída em tijolos policromados, às vezes referido como estilo "santa zebra". O "santa" refere-se ao fundador do colégio vitoriano, John Keble, famoso por liderar o renascimento católico na Igreja da Inglaterra.

Hoje, o Keble College parece olhar para o seu vizinho do outro lado da rua como se estivesse refletindo sobre o que a ciência fez com a religião. Assim, os auditórios de aula do departamento de física foram um excelente lugar para acolher uma conferência justamente sobre esse assunto, celebrando e criticando o trabalho de John Polkinghorne, um dos cientistas-teólogos mais conhecidos do nosso tempo.

Na primeira parte de sua carreira, Polkinghorne foi um físico matemático, chegando à posição de professor da Universidade de Cambridge. Então, em 1979, renunciou à sua cátedra e estudou para se tornar sacerdote anglicano. No quarto de século seguinte, ele escreveu cerca de duas dezenas de livros sobre a relação entre ciência e religião. Um homem encantador para se conhecer, entre papéis e apresentações, ele fala tão comodamente com humildes jornalistas quanto com seus ilustres colegas.

Polkinghorne se descreve como um teólogo "de baixo" [bottom-up]. Ele está preocupado em mostrar não só que a ciência moderna é compatível com a crença cristã ortodoxa, mas também que o crente em Deus pode ter uma base tão racional para o seu compromisso quanto o cientista tem para o seu. Ele toma emprestada uma noção apresentada pelo filósofo Michael Polanyi, de crença bem motivada, que procura: "um estado de espírito em que eu possa manter com firmeza o que eu acredito ser verdade, embora saiba que possa ser concebivelmente falso".
Isso torna a versão de Polkinghorne acerca da teologia natural – aquela parte da teologia que olha para a razão e a natureza ao invés da revelação – mais atraente do que a de seus contemporâneos Alister McGrath e Richard Swinburne. Assim argumentou um colaborador, Rodney Holder.

Por exemplo, McGrath insiste que a teologia natural deve ser incorporada à revelação de Deus: ela fala aos cristãos acerca do Deus que eles já conhecem como Trindade. Mas McGrath também diz que a teologia natural pode levar os não crentes a Deus. Por isso, ele emprega a razão e a natureza contra seus oponentes ateus, não apenas em seu livro "The Dawkins Delusion" [A ilusão de Dawkins]. Coloque as duas afirmações junto, porém, e parece haver uma inconsistência, ressaltou Holder.

Por outro lado, a teologia natural de Richard Swinburne utiliza a teoria da probabilidade para argumentar que Deus é a explicação mais provável para os fenômenos naturais, da experiência religiosa à afinação cósmica. Mas essa abordagem é problemática, continua Holder, em parte porque as probabilidades sempre podem ser questionadas, e em parte porque ela só leva a um Deus racionalista, e portanto sereno, dos filósofos.

Polkinghorne é diferente. Ele acredita que a teologia natural nos mostra coisas sobre Deus que não podem ser apreendidas por meio da revelação apenas. Ela não oferece provas de Deus, mas oferece sim insights. Por exemplo, a ciência sugere não só que Deus criou o tempo a partir da eternidade, a doutrina tradicional, mas também que Deus realmente experimenta a temporalidade e não sabe o futuro. A teologia natural de Polkinghorne pode ser resumida no comentário do teólogo Bernard Lonergan: "Deus é a explicação totalmente suficiente, o êxtase eterno, vislumbrado em cada grito de `Eureka` arquimediano". Isso é, concluiu Holder, profundamente gratificante.

Fraser Watts, o cátedra Starbridge em ciências e teologia naturais na Universidade de Cambridge, não foi tão otimista. Ele fez críticas a Polkinghorne, embora em um espírito de respeito. Tomemos a aparente sintonia fina do universo, disse ele. Os crentes em Deus precisam ser cautelosos para não fazer uma confusão teológica com aquilo que também é conhecido como o "princípio antrópico", que basicamente afirma que o universo é como é porque, de outra forma, os seres humanos não estariam aqui para observá-lo. Por um lado, os físicos poderão um dia ser capazes de explicar isso dentro do domínio da ciência. Por outro, reivindicar isso como evidência de desígnio de Deus requer uma habilidade epistemológica – um movimento da ciência, que concebe o cosmos como falta de ação, à religião, que concebe o cosmos como repleto de propósito e intenção.

Enquanto isso acontece, os físicos podem estar no meio do caminho rumo à explicação da sintonia fina, por intermédio da chamada teoria do multiverso. Esta apresenta o nosso universo como apenas um dentre muitos, e assim mostra que não é nenhuma surpresa que o nosso seja "finamente sintonizado", pois não estaríamos aqui para perceber isso se não existíssemos. Assim, é melhor, argumenta Watts, não fazer sua teologia afirmando vantagens em relação à ciência. Os cristãos podem chegar a um acordo com os multiversos também, concluiu.

Talvez o artigo mais impressionante da conferência foi dado pela filósofa da ciência e não-crente, Nancy Cartwright. Ela é bem conhecida por sua ideia de que a ciência não é tão unificada como disciplina quanto os cientistas tendem a pensar que seja. Observando cuidadosamente como a ciência realmente procede, ela concluiu que ela faz uso de uma variada gama de princípios e teorias para descrever os fenômenos que descreve, e que estes não podem ser reduzidos a algumas poucas e simples leis que poderiam ser fundidas em uma "teoria de tudo".
O que isso pode significar para os crentes em Deus, sugeriu ela (meio em tom de gozação) é que Deus não é um legislador, mas sim um engenheiro. Uma divindade compatível com a ciência moderna seria aquela que pega o material bruto da natureza e o molda nisto, e depois naquilo. Uma semente seria um exemplo dessa engenharia divina, porque, mantidas inalteradas todas as outras condições, ela produz uma planta. Em geral, se o livro da ciência parece estar escrito em várias linguagens, isso talvez seja porque o livro da natureza também o é.

Para o pensamento de Cartwright, isso na verdade levaria a uma noção mais atraente da divindade do que a tradicional com a qual ela foi criada, já que é um Deus que ama a bagunça! "Glória a Deus pelas coisas malhadas" [Glory be to God for dappled things], escreveu Gerard Manly Hopkins. Exatamente, ela concordou.

Sua plateia de teólogos-cientistas escutava nervosamente, talvez como o Keble College faz com os laboratórios de física. Alguns temiam que ela pudesse ser interpretada como defensora do Design Inteligente. E o próprio Polkinghorne não engolia isso. E as leis de conservação da física, perguntava ele, de energia, momentum e carga? Elas são claramente universais.


E elas apontam para a unidade da verdade e da beleza da ordem cósmica, que leva esse notável pensador para o Deus no qual ele acredita estar embaixo, em cima e por todas as partes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário