sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A questão do Avestruz de Lamentações e Jó

Por Ricardo Ferreira:
Eu estava postando na comunidade Contradições da Bíblia, mas saí de lá pelo fato de que o moderador da comunidade (deveria ser denominado inquisidor da comunidade) não conseguiu se manter em um debate somente com argumentos e partiu para ofensas pessoais, no caso, me chamando de mau caráter. Como aqui ele não é moderador, se quiser responder ao meu debate "SEM SUPERPODERES" e "COM EDUCAÇÃO", então acho que os debates podem ser proveitosos.

Inicialmente vou comentar o texto:
“O avestruz [...]deixa os seus ovos na terra, e os esquenta no pó, e se esquece de que algum pé os pode esmagar ou de que podem pisá-los os animais do campo. Trata com dureza os seus filhos, como se não fossem seus; embora seja em vão o seu trabalho, ele está tranqüilo, porque Deus lhe negou sabedoria e não lhe deu entendimento”.

Qual a espécie e animal em questão?
Em Lamentações temos uma menção ao avestruz e em Jó uma ave que é traduzida muitas vezes por avestruz mas algumas vezes por coruja.

Em se tratando, em ambas as passagens, de um avestruz, então com grande probabilidade se trata do "Struthio Camelus Syriacus" que é uma espécie extinta em meados do século passado.



Os judeus evidentemente mencionaram então em duas passagens bíblicas a crueldade da ave.

Na página http://www.aramcoworld.com/issue/198202/the.camel.bird.of.arabia.htm com texto escrito por Caroline Stone se pode ler:

Arab naturalists also focused on the ostrich - and often described it quite accurately. The following passage, for example, comes from Qazwini, whose Cosmography, written in the mid-13th century, includes a long section on birds: When the ostrich has laid her eggs, 20 in number or more, she buries them under the sand, leaving one third in one place, exposing another third to the sun, and hatching another third. When the chicks have come out, she breaks the hidden eggs and feeds her young with them. And when the chicks have grown strong, she breaks the last third on which vermin will collect, and this serves as food for the young until they are able to graze.

Neste texto, do século XIII, mas que a autora cita a passagem árabe RESSALTANDO a ACURACIDADE da passagem (...and often described it quite accurately...). Evidentemente é a opinião dela, mas é um relato.

Nesta passagem, vemos que o avestruz deposita 1/3 dos ovos sob o pó (under the sand), 1/3 deles expostos ao sol e 1/3 deles são quebrados para que vermes aparecem nos seus corpos e sirvam de alimentação aos demais.

Bom. Até agora, tenho dois relatos, embora antigos, sobre a crueldade do avestruz siríaco.

Aguardo trabalhos (com links e citações corretas) sobre esta espécie de avestruz e seu comportamento. Até lá, o que temos são dois relatos sobre a crueldade do avestruz.

O avestruz citado em Jó
The correct identification of the בַּת הַיַּעֲנָה (ba't haYa'anah), "daughter of the desert", as ostrich is not certain; it may be the Pharaoh Eagle Owl (Aharoni 1938 and compare NIV Leviticus 11:16)
Só para deixar registrado o que comentei no primeiro post.
Links sobre o avestruz

John Whitfield
SUMMARY: Archaeologists unearth memorial covered in Arabic text.
CONTEXT: Archaeologists have uncovered a 500-year-old ostrich egg covered in Arabic poetry. The verses mourn the death of a loved one. The egg was found in the Red Sea port of Quseir, Egypt. In the fifteenth century, Quseir was a hub for trade...
News@Nature (25 Nov 2002), doi: 10.1038/news021125-11, News

Paul Bahn
CONTEXT: ...what appears to be a domesticated ostrich has now been discovered1, confounding the view that these birds were domesticated only in historical times. In the past, one very schematic figure of an ostrich with a man on its back and...
Nature 346, 794 - 794 (30 Aug 1990), doi: 10.1038/346794a0, News and Views
Ostriches recognise their own eggs and discard others

BRIAN C. R. BERTRAM
CONTEXT: ...the nest, helped by the male. Although a complete nest may contain up to 30–40 of the white 1.5-kg eggs4,5, an ostrich hen can incubate only about 20 (unpublished data). The surplus are pushed out to 1–2 m away where they are not...
Nature 279, 233 - 234 (17 May 1979), doi: 10.1038/279233a0, Letter

Wild Life in Arabia
CONTEXT: ...south of Jedda, where baboons are plentiful, and also in the more generously wooded hills of Dhofar. In Arabia the ostrich is extinct, although it would appear that these birds existed in some numbers over the open gravel plains of...
Nature 170, 238 - 238 (09 Aug 1952), doi: 10.1038/170238a0, News

Focarei no autor
BRIAN C. R. BERTRAM
O mesmo autor, publicou um livro de título:

The Ostrich Communal Nesting System (Monographs in Behavior and Ecology)
# Hardcover: 212 pages
# Publisher: Princeton Univ Pr (September 1992)
# Language: English
# ISBN-10: 0691087857
# ISBN-13: 978-0691087856

Pode ser adquirido em:

Eu já adquiri o meu exemplar. Enquanto o meu exemplar não chega, localizei um comentário bem elaborado sobre o assunto na internet sobre os fatos levantados no livro em:

Tudo o que estou fazendo inicialmente é traduzir trechos do texto encontrado em:

O comportamento dos avestruzes, relatado em seu livro "The Ostrich Communal Nesting System" nos indica que:

* Avestruzes definitivamente "deixam" seus ninhos - Em um estudo em 57 ninhos, Bertram encontrou que "a maioria havia sido destruída por predadores após ter sobrevivido por diferentes e imprevisíveis períodos de tempo. Como resultado, "A grande maioria dos ninhos de avestruzes não produziu nenhuma cria, e o principal motivo foi por predadores
* As fêmeas secundárias de avestruzes -- chamadas por Bertram de "fêmeas menores (hens - galinhas)" -- deixaram seus ovos no ninho, mas a partir disto, não tomam mais parte em atender e guardar os rebentos nem em incubá-los. Isto realmente soa como esquecer e comportamento cruel para o autor da página (e para mim também!).
* Bertram confirma o comportamento de se jogar os ovos das fêmeas secundárias para fora do ninho a medida que se precisa de espaço; Somente 20 ovos no máximo podem ser cobertos. Isto aconteceu na maioria dos ninhos encubados. Os ovos lançados fora eventualmente se romperam ou foram destruídos.
* Os machos ficam 71% do tempo de incubação no ninho. A fêmea principal, 29%; As fêmeas secundárias, nunca.

O site apresenta outros textos igualmente importantes que confirmam que os avestruzes abandonam ovos no campo e tem pouco cuidado com seus filhotes.

Pode ser que a fêmea principal seja cuidadosa, mas as demais fêmeas (ou seja, a maioria das fêmeas) abandonam seus filhotes (o que indica que os trata como se não fossem delas).

Que relato surpreendente de confirmação bíblica...

Quando o livro chegar a minha casa, confirmarei as citações (gosto de ler os originais).

É preciso ressaltar que o autor destas observações escreveu artigo na Nature, uma revista peer-review (como gostam os ateus)

O link abaixo nos confirma o que relatamos no site anterior:

Veja algumas frases selecionadas do texto:
"..The family also has a dominant female and several other females, called minor hens..."
"..Males and females are polygamous (puh-LIH-guh-mus), meaning they have more than one mate at the same time..."
"About 10 percent of the eggs will hatch and on average only one chick per nest will survive to adulthood"

1 em cada 20 atingem a vida adulta... Isto é que é cuidar bem de seus filhotes, não é ?

Nossa! fiquei impressionado! Um exemplo!


O interessante é que a passagem escrita em: http://www.tektonics.org/lp/ostrich.html confirma parte do relato dos árabes medievais sobre ninhos com 20 ovos e que alguns são descartados.

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